David Magalhães

Amberfig

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David Magalhães

Jovem dedicado e talentoso, o estudante de medicina, David Magalhães, é fundador e “nariz” da Amberfig, perfumaria brasileira de nicho indie – que com apenas quatro anos de existência já é sinônimo e referência de qualidade e seriedade profissional.

Salvaguardados o precioso suporte da mestra brasileira Ane Walsh, no início de tudo, e uma rápida passagem pela Natural Perfume Academy, já mais pra frente, você é, efetivamente, um perfumista autodidata. E suas criações, mesmo as primeiras comercializadas (Oriental Noir, e Yasamin) comprovam isso. Mas, como nascem as suas fragrâncias? Você estabelece briefings específicos e as criações partem deles, ou elas surgem, espontaneamente, a partir da observação olfativa de seu cotidiano?
As criações surgem de várias formas, às vezes, criamos um briefing do zero, de acordo com a proposta desejada. Por exemplo, Oriental Noir é um perfume que foi criado para ser um perfume “especiado, quente e até certo ponto noturno, mas que mostrasse facetas que o tornasse usável num clima tórrido”. Às vezes, o briefing surge do nada, em algo cotidiano; por exemplo, Smoking Lounge foi criado inspirado na sala de fumar de O caçador de Pipas, e a ideia me veio quando eu estava lendo o livro e a descrição me transportou para o ambiente. Eu quis levar outras pessoas pra lá. Outras surgem de experiências, como Café Massoïa que tem o cheiro de uma livraria que eu frequentava, que tem uma cafeteria dentro, e eu gostava de ficar lendo, tomando cappuccino. E outras, simplesmente, são criadas para determinada proposta: “Preciso de um cítrico novo! Verde? Laranja? Madeiras? Resinas?”, quase como se o “briefing” viesse pós criação.

Em uma conversa prévia, você havia me adiantado que a novíssima Coleção Verão (Cinton Noir, Infiniment Mandarine, Pluie d’Orange, e Orange Flamboyant), que acaba de ser lançada (bate-papo originalmente publicado em fevereiro/2018, no Facebook), é fruto de pesquisas que já vinham sendo realizadas há algum tempo. Eu sempre comento com amigos a falta de fragrâncias, de qualidade, desenvolvidas especificamente para o verão no portfólio dos perfumistas independentes brasileiros. Na sua opinião, a que se deve isso? O mito de que “perfume bom é perfume que projeta e fixa muito” (o que descartaria fragrâncias estruturalmente cítricas), mesmo que falso, ainda é um tabu para os perfumistas indies nacionais na hora de desenvolver fragrâncias frescas?
Existem três lados: um primeiro de que o brasileiro gosta de projeção e fixação e criar algo cítrico/fresco com essas duas qualidades e ainda muito natural é bem complicado. E, segundo, o fato de que a maioria das notas de base naturais não são muito transparentes (como encontramos nos sintéticos, por exemplo), o que dificulta a criação de um cítrico essencialmente natural que seja adequado para um calor extremo. O terceiro ponto é que para que um perfume cítrico/fresco consiga ter boa fixação/projeção, criado numa base transparente, ele precisa ter uma base muito bem estruturada, o que é complicado de se construir e vejo isso como empecilho para alguns perfumistas naturais aqui no Brasil. Unindo-se tudo isso ao mercado, que preza por perfumes doces e fortes às 6 da manha aos 35ºC, fica quase inviável.

Ainda sobre perfumes que fixam e projetam muito, tenho percebido nos grupos “perfumeiros” do Facebook, uma insatisfação crescente do público em relação à excessiva “oleosidade” de fragrâncias produzidas artesanalmente (ou em produção de baixa escala), o que poderia ser resultado de formulações com concentração “eau de parfum” ou ainda “extrait parfum”, ou até mesmo do uso exacerbado de materiais policíclicos. No seu ponto de vista, qual poderia ser uma solução interessante para esse dilema?
Algo que vejo acontecer no Brasil, exatamente pelo fato do brasileiro gostar dessa coisa de fixação/projeção, são as criações em “extrait de parfum”. Uma concentração “extrait” parte de 20-35% de óleos essenciais. Mas o que fazem no Brasil é colocar quantidades enormes de almíscares sintéticos “galaxolide, tonalide a 50%”, além de diluições em dipropilenoglicol, fazendo com que a concentração final chegue aos 30-35%, sendo que a quantidade real de óleos essenciais é de 15%, digamos. Existe uma diferença entre concentração de óleos essenciais (naturais) e de essências (sintéticos). A Amberfig, por exemplo, só tem um “extrait de parfum”, o Amberfig Extrait, que tem 25% de concentração de óleos essenciais, que seria um extrait verdadeiro. Resumindo, acredito ser a união do fato do brasileiro gostar de altas concentrações, com o uso de sintéticos “fixadores” em altas concentrações para atingí-las.

No final de 2015, você concedeu uma entrevista ao Cassiano Silva, para a Perfumart, e declarou sua pretensão em conciliar a Cirurgia Plástica (cuja formação continua em andamento – fev/2018) e a criação e desenvolvimento de perfumes, contudo, a medicina seria a sua prioridade. Entre 2017 e o início de 2018, foram nove novas fragrâncias lançadas, quatro, com a nova Coleção Verão, outras quatro com a Coleção Inverno (Bittersweet, Iris Dark, Famonty, e Vanille Sucré) e a baladeira Vive La Fête entre elas; o que é um feito admirável! A gente já pode dizer que a perfumaria está ocupando um espaço maior na sua vida?
Sim, ela tem ocupado um bom espaço. Mas o que também vem ocorrendo é o fato de que estou com vários projetos de perfumes ao mesmo tempo. Por exemplo, Estou trabalhando em um tabaco, há alguns meses, um outro, de rosas, há algumas semanas. A linha nova de cítricos tem o Orange Flamboyant que contou com três anos de trabalho. O Cintron, que veio junto do projeto do Oudh, já lançado há um bom tempo. Acredito que se deva a isso.

Com a chegada da Coleção Verão Amberfig, e a depender da aceitação do público, seria possível considerar a criação de uma linha ainda mais leve e refrescante, inspirada nas tradicionais águas de colônia francesas?
Já pensei numa linha de colônias. Tenho amado criar perfumes mais frescos. Mas chegamos novamente naquele mesmo ponto. Fixação? Projeção? Irá vender? Uma criação demanda muito tempo e um grande projeto. Tudo tem de ser pensado milimetricamente. Mas penso, sim!

E, pra finalizar, na pirâmide olfativa da vida, que nota é você? Explique!
Bom, pergunta difícil. Mas, não sei se sabes, Amberfig vem de âmbar + figo, notas favoritas minhas, e do sócio que tive, no começo da Amberfig. Âmbar é a minha favorita, acredito que seria ela. Âmbar, em perfumes, é um acorde (claro, na maioria das criações) de benjoim, baunilha e ládano. Complexo, quente, resinoso e que pode ser ajustado para qualquer criação, da mais fresca à mais pesada. Uma delícia!

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