Sobre

Minha memória mais remota de contato com perfumes, ou melhor, com cheiros perfumados é de quando, em Araxá, no interior de Minas Gerais, nos mudamos para uma casa com um jardim imenso em frente ao alpendre de entrada. Nesse jardim, havia um pé de frangipani em flor – flores que praticamente recobriam a escada de acesso à varanda. Lembro que peguei uma dessas flores caídas; primeiro encantado pelas cores, que mesclavam um branco em tom de chantilly, com um amarelo vivo e um fundo laranja intenso, quase vermelho; e depois, imediatamente depois, senti o perfume mais embriagante que eu já havia sentido na minha vida! Era um cheiro carinhoso, com toque sedoso e envolvente, como o beijo protetor de boa noite da minha mãe. Eu deveria ter uns quatro ou cinco anos de idade.

Quatro décadas depois…

Em dezembro de 2016, comecei a perceber que os poucos perfumes que eu usava me entregavam mais que cheiros, eles me ofereciam sensações, sentimentos, histórias – próprias ou que remetiam às minhas, pessoais –, e isso despertou o meu interesse em conhecer outros perfumes. Foi quando eu comecei minha coleção, e também a participar de grupos sobre o assunto, no Facebook. As descobertas estavam (e continuam) sendo tão bacanas que resolvi compartilhar minhas impressões com outros amigos. À época, criei um Tumblr e, claro, o nome não poderia ser outro que não Frangipani. Mesmo nome que trago agora para o blog!

Para finalizar, deixo um excerto de um dos livros de Mia Couto:

“Eu tinha medo, o mesmo medo que os vivos sentem quando se imaginam morrer […] Olhei o frangipani e senti saudade antecedida dele. Eu e a árvore nos semelhávamos […] O halakavuma tinha também suas gratidões com o frangipani. Apontou a varanda e disse:
— Aqui é onde os deuses vêm rezar.”
Trecho de: “A varanda do frangipani”. Couto, Mia. Companhia das Letras.